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Tarô

Infelizmente, a origem do Tarô se perdeu nas noites do tempo, assim como muitas histórias a respeito de diversas tradições esotéricas. Porém a grande maioria dos pesquisadores acerca do assunto tem em comum que a procedência das cartas do Tarô seja obscura e ao mesmo tempo tão antiga quanto a própria existência do homem.
É possível que o Tarô seja um produto da Renascença italiana, uma época de grande efervescência cultural e resgate da cultura clássica. E para se falar da Renascença, é importante relembrar a Academia Médici, em Florença, Itália, que tinha como patrono Cosimo Médici (o velho). Dela fizeram parte nomes importantes, como Marcílio Ficino e Pico Della Mirandola. Este último foi um erudito, filósofo neoplatônico e humanista do renascimento italiano e seu maior objetivo foi conciliar religião e filosofia. Seguindo a linha de pensamento de seu mestre, Marcílio Ficino baseava as suas concepções
principalmente em Platão, em oposição a Aristóteles, e acreditava que toda a criação constitui um reflexo simbólico da Divindade. Sua filosofia influenciou muito as artes, e seu conhecimento ajudou a elevar o status de poetas, pintores, escultores e personalidades como, por exemplo, o de Leonardo da Vinci e Michelangelo, que se destacam até os dias de hoje.
A Academia Médici estava empenhada em resgatar o saber hermético, ou seja, o Hermetismo, tradição atribuída a Hermes Trismegisto – a antiga religião dos egípcios – já que para alguns o Tarô era fruto da criação egípcia. Foi inclusive na Academia Médici que houve a junção entre o Tarô e a Cabala. As cartas de Tarô eram conhecidas inicialmente como trionfi e depois tarocchi (tarô). Um dos registros mais antigos a respeito das cartas é de Martiano Tortona, que escreveu a respeito delas nas primeiras décadas do século
XV. Outros documentos, que fazem referência às cartas, são encontrados em Milão e Ferrara datando da mesma época.
Ainda no século XV, temos cartas de Tarô pintadas à mão, que hoje estão em posse de museus ou colecionadores, como, por exemplo, o Tarô de Charles VI e o de Sforza, conservados na Biblioteca Nacional da França, datados até agora como os registros mais antigos.
O Tarô de Marselha é sem dúvida o mais popular de todos os tarôs, pois é um dos baralhos mais estudados em todo o mundo e possivelmente inspirou os tarôs italianos como o Sforza. Sua popularização se deu graças aos ocultistas franceses, que na época difundiram um conhecimento extenso acerca dessas imagens.
O nome – Marselha – muito provavelmente se deu porque esse era o nome da cidade francesa em que se fabricavam as cartas.
Certo mesmo é que o Tarô não nasceu como o conhecemos hoje e não se sabe se ele foi criado originalmente com os Arcanos Menores e Maiores ou se esta união foi feita depois.
Uma coisa é quase certa: a elaboração simbólica do Tarô foi premeditada unindo elementos importantes do mundo da época, notadamente de tarôs da antiguidade e das repúblicas italianas, que passavam por um processo de expansão cultural, saindo da Idade Média e entrando em contato com culturas variadas.
O comércio era um forte elemento para a troca cultural, não por acaso a Itália foi o berço do Renascimento: uma sociedade elaborada e complexa, em busca do resgate do mundo clássico greco-romano, teve no Tarô uma excelente representação.
Tarôs eram encomendados por famílias poderosas da Itália e alguns tinham motivos comemorativos.
A capacidade do Tarô de unir símbolos foi fundamental para sua importância como veículo de transmissão de conhecimento, sendo considerado um legado de linguagem simbólica.
Um Tarô que serve de exemplo nesta época é o Tarô Visconti Sforza, confeccionado em Milão por Batista Bembo. O baralho mais completo deste Tarô se encontra na Morgan Library, em Nova Iorque.
Uma visão mais simplista e até repudiada por ocultistas sérios é que alguns acreditam que os sacerdotes do antigo Egito foram até as estrelas para buscar o conhecimento divino e assim o expressaram em cada lâmina para salvar a humanidade da ignorância. Há ainda a idéia de que venha a ser o resultado de todo o trabalho de evolução e sabedoria secreta vivida na época de Atlântida.
Os atlantes sabiam que toda a verdade interior tinha de ser alcançada e conquistada e, por este motivo, havia a necessidade de compreender, com os olhos da alma e do coração, cada mensagem transmitida nos arcanos do Tarô. Porém estas vertentes não são aceitas por muitos estudiosos por se tratarem de informações sem embasamento concreto.
Alguns textos antigos ainda assim afirmam que os 22 Arcanos Maiores do Tarô eram grandes pinturas que ajudavam a compor as paredes de uma passagem secreta que interligava a Grande Pirâmide e a Esfinge do Egito, e que ali acontecia parte de iniciações espirituais dos neófitos.
Comenta-se também que os chineses jogavam ou adivinhavam a sorte por meio de um conjunto de pequenas tábuas pintadas com figuras de animais, flores, dragões etc. e que, da evolução desse jogo, originaram-se dois sistemas: um que resultou no moderno dominó, e o outro, com suas características de “jogo divino”, que recebeu, na Índia, modificações com a introdução de elementos humanos que denotariam o jogo de Tarô.
A união do Tarô com a Cabala decorreu naturalmente, em que houve uma correlação entre os 22 Arcanos Maiores e as 22 letras do alfabeto hebreu.
Cada uma dessas letras também é, conseqüentemente, um número que resulta em uma expressão de seu real significado no Tarô.
A Cabala significa “aquilo que é recebido”, ou ainda “Tradição” e visa decifrar os mistérios da criação e suas formas de energia. Dentro do Judaísmo, temos várias divisões da Cabala, mas, para o nosso estudo, a mais importante é a Cabala Hermética, que, como vimos, surgiu na Renascença italiana. Lembrando que, na Cabala Hermética, o conceito da “Árvore da Vida” nos mostra um mapa do Cosmos de acordo com a inter-relação das forças que
a compõe.
A Árvore da Vida é composta pelo conjunto do que se chama sephiroth, que se relaciona aos planetas do Sistema Solar, aos caminhos que interligam essas esferas e, conseqüentemente, às cartas do Tarô. Posteriormente, mais símbolos e significados foram unidos aos arcanos do Tarô e reforçaram o valor arquetípico simbólico. Por esse motivo, o Tarô – e a simbologia de suas cartas – é tido por muitos como os portais de acesso ao
inconsciente coletivo e individual.
O grande psiquiatra suíço Carl Gustav Jung estudou a simbologia do Tarô e hoje existem várias abordagens entre o paralelo da Psicologia e o Tarô, especialmente dentro dos conceitos junguianos, o que nos dá a possibilidade de abordá-lo como uma viagem arquetípica do homem em busca de si mesmo.
Outro Tarô tão antigo quanto ou talvez mais que o Sforza é o Gringonneur. Há registros nos livros de contabilidade de Charles Poupart, tesoureiro de Carlos I da França, de um pagamento ao pintor Jacquemin Gringonneur, em 1392, referente à encomenda de três baralhos em dourado e várias cores, confeccionados para divertimento do rei. Apenas dezessete cartas foram conservadas e se encontram hoje na Biblioteca Nacional da França. Essas cartas por muito tempo foram tidas como pertencentes ao Gringonneur original,
mas na verdade nunca foi encontrado um exemplar das cartas referidas nos livros de contabilidade e, possivelmente, essas cartas que se encontram no museu são do século XV, de origem italiana.
Em 1781, o Conde de Gebelin publicou o Le Monde Primatif, em que diz que as cartas de Tarô foram originadas no Egito e que teriam chegado à Europa trazidas por ciganos.
O Tarô era entendido como uma viagem pictográfica e iniciática representando um verdadeiro mapa do universo. O seu uso como oráculo foi evidenciado na Europa, com Eteilla, grande seguidor de Gebelin, posteriormente produzindo dezenas de métodos de jogos e interpretações.
A afirmação de que o Tarô tivesse sido originado no Egito e difundido pelos ciganos também foi utilizada por um grande número de ocultistas e ordens iniciáticas, como Eliphas Levi, Aleister Crowley e Arthur Edward Waite, que faziam parte da Golden Dawn (Ordem Hermética do Amanhecer Dourado), uma importante ordem iniciática fundada no século XIX na qual o Tarô e a Cabala foram dois dos temas estudados em profundidade pelos
seus ocultistas.
Aleister Crowley escreveu o Livro de Thoth, um dos livros mais importantes a respeito do Tarô. Arthur Edward Waite, grande responsável pela difusão do Tarô na modernidade, escreveu The Key to the Tarot (A chave do Tarô). Para Crowley, a descoberta da vontade pessoal era o centro da senda iniciática, conduzindo o indivíduo à sua identidade mais profunda e, conseqüentemente, ao esclarecimento de seu papel no Cosmos.
Edward Alexander Crowley, mais conhecido como Aleister Crowley, nasceu na Inglaterra em 1875. Em sua existência, foi um homem ímpar: alpinista, enxadrista, caçador e um dos maiores ocultistas de todos os tempos, mas, por causa dos seus excessos e suas opiniões bizarras, tornou-se uma figura maldita para muitos. Foi também criador de um sistema de Magia baseado na Golden Dawn, mas com um enfoque filosófico único.
Um dos fatos mais importantes na vida de Crowley foi a sua entrada na Golden Dawn, em 1898, onde pôde explorar seus dons naturais de Mago e aprender as bases da tradição ocidental. Sua escalada na Ordem foi meteórica, o que ocasionou inveja dos outros membros, situação tida por alguns como o começo do fim da Ordem. Ao sair da Ordem, Crowley passou por uma experiência única no Egito: em contato com uma entidade espiritual de nome Aiwass, que lhe ditou um legado de conhecimento, ele pôde escrever o
conhecido Livro da Lei – mais precisamente, as leis para a Nova Era. Esse fato marcou profundamente a vida de Crowley e ele se tornou o profeta da Nova Era e divulgador deste novo conhecimento.
O Tarô de Crowley (mais conhecido como Tarô Thoth) é uma viagem pictográfica ao universo da Nova Era, contendo em seus desenhos e símbolos grandes segredos.
Foi pintado por Lady Frieda Harris, sob as orientações de Crowley, e seu projeto se iniciou em 1938 e se concluiu em 1943, mas somente no ano de 1971, após 25 anos, foi publicada sua primeira edição em cores.
Sabemos que a filosofia de Crowley influenciou pessoas como Paulo Coelho, Raul Seixas, David Bowie entre outras personalidades do mundo todo, além, é claro, de ter reunido inúmeros seguidores.
Já o ocultista Arthur Edward Waite via as cartas de Tarô como um alfabeto cósmico reunido, por meio do qual poderíamos desvendar os seus segredos. Para ele, além do Tarô ser um método para se desvendar o futuro, é também uma importante ferramenta de autoconhecimento, além de desvendar os mistérios do universo, consistindo num verdadeiro compêndio visual da doutrina secreta e da sabedoria antiga. Waite idealizou o Tarô Rider Waite, hoje um dos mais vendidos do mundo, sendo um divisor de águas para o universo do Tarô, tornando acessível um conhecimento que só era disponível aos iniciados.
Ele foi desenhado pela artista Pamela Colman Smith, que seguiu as orientações de Waite para compor as 78 cartas. Este baralho foi editado pela primeira vez em 1910 pela Rider & Co. de Londres. Waite usou o sistema da Golden Dawn, no qual a carta do Louco é o numero zero, ou seja, a primeira carta da seqüência dos Arcanos Maiores.
Muitas são as dúvidas acerca da verdadeira origem do Tarô e qual sua função quando surgiu, podendo ser apenas um jogo para diversão, um método divinatório ou ter sido criado para ser utilizado como um processo de iluminação e individuação. Hoje percebemos que ele não só cumpre todas essas funções como também desperta interesse de pesquisadores e profissionais de diversas áreas em todo o mundo, tornando-se um dos oráculos mais conhecidos da atualidade.
É interessante notar que, mesmo existindo vertentes tão distintas entre si tentando nos explicar parte de um mistério, sentimo-nos atraídos pela magia natural que o Tarô exala.
Desde então começou a surgir uma quantidade quase que infinita de tarôs por todo o mundo, em diferentes culturas, até os dias de hoje.
E mesmo que não estejamos esclarecidos com total confiança quanto às verdadeiras origens do Tarô, sabemos que ele guarda em sua história enigmas que, quiçá, um dia descobriremos.

Fonte: Tarô - O Jogo da Vida, André Mantovanni, Editora Ghemini

 

 

 
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