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Christiane Alves: Depois de 12 livros esotéricos voltados para qualidade de vida,por que agora buscar a poesia?
André Mantovanni: Mesmo com a trajetória de 12 livros, pela primeira vez estou me sentindo um escritor. É um livro que não vejo como uma obrigação. Obrigação que eu digo é que ao longo de uma carreira as pessoas te pedem para escrever sobre isso ou aquilo. E este livro foi inteiramente inspiração, poesia, literatura, coisas de que sempre gostei desde criança. Para mim está sendo uma experiência nova, não que eu queira desvalorizar o que já fiz anteriormente, mas esta é uma experiência inteiramente nova. É como me atirar de um penhasco sem saber se terá uma rede lá em baixo para me pegar.
C.A.: Então, é diferente de tudo que você já fez?
André Mantovanni: Sim, sim. Foi um trabalho de três anos.
Algo experimentado, vivido, não foi uma poesia simples. É um trabalho maduro. São minhas vivências pessoais que estão neste livro. |
C.A.: De onde veio a inspiração?
André Mantovanni: Sempre gostei muito de Maria Bethânia. Aprendi a gostar de literatura, também por conta dela. Conheci os grandes poetas, grandes escritores através de suas músicas, ela sempre foi muito ligada à literatura.
Especificamente dois shows dela: o Tempo, tempo, tempo e Dentro do mar tem rio, foram os que me marcaram muito, marcaram épocas da minha vida. Toda sua poesia, a arte que cercava suas músicas. Foi através desses dois trabalhos que eu realmente senti a necessidade de buscar a minha poesia, a minha escrita, mas eu não sabia que isso iria virar um livro. Então fui buscar o canto, o teatro. A escrita para mim foi uma descoberta. |
C.A.: Como a descoberta virou livro?
André Mantovanni: Pois é, Mar de mim nasceu depois de alguns poemas e músicas que eu comecei a escrever. A Luciana Paez que escreveu a orelha do livro, disse que deveria fazer um livro sobre o material que já tinha, contando minha arte. Aí sim eu percebi que minha arte não estava nos palcos nem na música, apesar de gostar muito e ter estudado, mas sim na criação escrita de sentimentos. Maria Bethania foi o fio condutor, também não posso dizer que toda obra dela me inspirou, porque isso não aconteceu, foram apenas dois discos, dois shows muito pontuais e também toda a diversidade dela. Eu adoro o seu trabalho. Ela pode estar no palco cantando cantiga de roda que tudo estará muito lindo, isso me encorajou. |
C.A.: O que tem na obra de Bethânia que o inspira tanto a ponto de fazer um livro baseado nisso?
André Mantovanni: Primeiro ela enquanto pessoa, o que me encanta é a forma como ela vê a música e a literatura e da importância das duas coisas andarem juntas e de serem arte não de entretenimento apenas, mais do que isso, de transformação de caminho. As obras dela têm uma inspiração espiritual por conta até dos temas que ela aborda, espiritualidade, fé, devoção, amor, solidão, estes são temas que cercam minha vida também. E enquanto artista a admiração de uma carreira de sucesso, cada vez mais madura e de um envelhecimento confortável como ela mesma coloca, parece que ela está gostando de envelhecer. |
C.A.: Fale mais sobre o porquê do mar e das obras de Bethânia.
André Mantovanni: O mar para mim sempre teve uma simbologia muito forte, desde quando eu era menino sonhava que quando envelhecesse estaria perto do mar, com meus discos, meus livros, meus amigos. Isso para mim é uma realidade não é um sonho é algo que vai acontecer. O mar sempre teve um significado especial para mim, embora não tenha nascido em lugar de praia, não tenho essa vivência de ter sido criado perto dele, mas ele sempre me chamou. E Bethânia tem uma ligação muito forte com o mar, ele é visto em muitas de suas obras, um mar poético, encantado que tanto gosto. |
C.A.: Porque mudar de gênero?
André Mantovanni: Eu não sei se estou mudando de gênero, estou acrescentando. É mais uma possibilidade das pessoas que me conhecem que já leram outros livros, de verem outra parte de mim. Agora estou em outro momento de vida, este livro é como um divisor de águas, onde a única coisa que eu sei é que não quero escrever só sobre espiritualidade porque há mais a ser explorado e a ser encontrado dentro de mim. |
C.A.: Você sentiu muita diferença em escrever livros sobre espiritualidade e de poesia?
André Mantovanni: Totalmente, os livros que já fiz dependeram de inspiração enquanto projeto. Já Mar de mim, é uma abordagem pessoal, um sonho. Então é diferente em tudo. Eu participei de todo projeto desde a revisão, diagramação, da escolha das fotos, pois o livro contará com algumas fotos, eu quis expressar esse Mar de mim de muitas maneiras, terão fotos de grandes artistas que são meus amigos, do meu arquivo pessoal entre outras, quis participar de perto de tudo isso. É gratificante ver a inspiração passada no papel tomar vida através do livro, que agora não é mais meu e sim do mundo. |
C.A.: Pretende escrever mais livros de poesia?
André Mantovanni: Gosto de poesia, quando estou em casa gosto de rabiscar algumas coisas sobre diversos temas, acho que nunca vou deixar de escrever poesia, me identifico com ela. Poesia pra mim é silêncio e encontro. Também me identifico muito com Clarice Lispector, Lia Luft, Sophia de Mello, Fernando Pessoa, Ferreira Goulart e João Cabral de Melo Neto são pessoas que não se limitaram a escrever só poesias, em suas obras encontramos crônicas, ensaios, romances, mas acho que isso depende de uma maturidade interior e a poesia pra mim pode ser o primeiro passo. |
C.A.: O que o leitor pode esperar de “Mar de mim”?
André Mantovanni: Argumentação, mais perguntas do que respostas. Eu faço uma escrita de acordo com aquilo que gosto de ler. Mar de mim é um livro de inquietações. Creio que o leitor irá se surpreender com meus poemas. |
C.A.: Você acha que a exposição de vivências, mesmo em forma de poesia, podem assustar?
André Mantovanni: Neste livro as pessoas não vão encontrar nenhuma ficção, elas irão encontrar partes de mim, claro que algumas vezes fantasiados por alguns arquétipos, mas o livro é muito mais perto do real do que do imaginário. Foi doloroso porque eu não sabia o que era me expor, embora eu seja uma pessoa conhecida, já tive trabalhos na TV e outros livros, mas com este livro a exposição é de outra maneira. Acho que aí está a graça, o encanto, é você se expor sem dizer claramente o que quer mostrar. |
C.A.: “Mar de mim” é um nome que sugere uma transparência e a abertura das portas de toda sua vida e de todo seu ser. É isso mesmo que a sua poesia fala? Da sua vida?
André Mantovanni: Não diria que seja um livro autobiográfico, porque não é, são passagens. Usando até a linguagem do mar, eu diria que é um livro de movimentação, ele veio em ondas. É de transparência sim, fala de um ser que ainda não é, que ainda busca. Fala muito sobre o que sinto, de minhas frustrações e felicidade.
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C.A.: Seria um diário que virou livro?
André Mantovanni: Não diria dessa forma, pois foram passagens, não me programava para escrever. Cada poesia foi resultado de um processo que eu vivi no teatro, na vida pessoal, na música, nos rituais de plantas de poder e é lógico, na psicanálise. Mar de mim é o resultado da minha passagem pela vida até os meus 29 anos, que para mim também marcou uma transformação muito grande. Está sendo todo um processo de amadurecimento de sair da juventude e entrar na maturidade.
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C.A.: Podemos dizer que o livro é André como pessoa?
André Mantovanni: Sim, mas também tem o André buscador, o tarólogo, o que quis ser ator, cantor, o que quis compor e que no final de tudo entendeu que era a escrita o seu caminho de realização. As palavras são o meu palco sagrado.
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C.A.: Não é difícil abrir sentimentos e escancará-los em um livro?
André Mantovanni: Totalmente, acho que isso é o que mais me incomoda, saber que alguém vai ler o livro e pensar ‘ Ah! Eu sei o que você pensa sobre isso!’ ou então deduzir coisas que não são reais, mas nisso como disse, tem um encanto.
O livro traz coisas que sinto, que desejo, que vejo e que me dão medo no exercício de viver.
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C.A.: O que você quer que os leitores habituais do André Mantovanni sintam de diferente?
André Mantovanni: Que não sou apenas o que eles acham que sou. Há muito mais por trás do tarólogo, do esotérico, do espiritualista.
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C.A.: Você acha que o livro pode desmistificar a imagem de bruxo e vidente que muitos fazem de você?
André Mantovanni: Sim! Sem querer o livro também acaba tendo essa função. No momento em que estou da minha carreira poderia chamar o livro de ousado, pois vai mostrar de onde eu vim e aonde eu já cheguei e para onde estou indo.
Mostrar um novo ponto, um novo André. Talvez até assustar algumas pessoas e até ser muito criticado pelos intelectuais pela minha pretensão de escrever poesia. Mas não me incomodo com isso, eu quero simplesmente mostrar meu trabalho que é uma arte na qual pertenço e fico feliz com as pessoas que quiserem “beber dessa água”. |
C.A.: E quem não conhece André Mantovanni nem sua forte tendência literária para qualidade de vida e espiritualidade. O que você espera que eles sintam?
André Mantovanni: Acho que as pessoas irão se surpreender com este trabalho.
Nunca me considerei apenas um escritor sobre espiritualidade e autoconhecimento.
Passando pela arte e percebendo as obras de Maria Bethânia, compreendi que as duas coisas podem andar juntas e desabrocharem grandes resultados.
É bem diferente me conhecer através da poesia, acho que elas vão entender que tudo que relato nos livros que já escrevi sobre espiritualidade são muito verdadeiros para mim, não é só técnica, modismo, mesmo porque vinha dando sinais de novas descobertas em minhas obras, iniciando o trabalho sempre com a citação de um poeta, escritor que são raros para nós.
A literatura está em mim desde sempre. |
C.A.: Você se sente um poeta?
André Mantovanni: Não me sinto um poeta, aliás acho que estou longe disso. Poeta é Fernando Pessoa, Sophia de Mello, Ferreira Goulart entre tantos, eu me considero um adorador das palavras. Sou escritor em inicio de carreira e feliz nesta condição. A única obrigação que tenho na escrita é me descobrir, ser mais feliz, poder sonhar mais. |
C.A.: Quantos livros mais de poesia podemos esperar?
André Mantovanni: Vários, quero entender melhor o Mar de mim agora, temos muito trabalho a ser feito com ele ainda. Eu sei que o próximo projeto não será sobre espiritualidade. Talvez um romance, crônicas alguma coisa assim.
Mas ainda é cedo para pensar no que vem pela frente, estou em fase de profunda ligação com o Mar de mim. |
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